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Cacá Araújo: O sentido da malhação de Judas

“Com graça e irreverência, longe da sisudez comum à ortodoxia conservadora da Igreja, a malhação promove a sacralização do considerado profano, abominando toda forma de traição e festejando coletivamente a palavra e os gestos de fé na felicidade possível”.

Por Cacá Araújo*

Depois de mais de 2.000 anos, o gesto de Judas Iscariotes parece ter reencontrado seu motivo original: provocar uma onda de revolta contra os opressores.

Origem pagã

O homem é um ser social e ritual. Desde o princípio dos tempos, ele ritualiza a vida em todos os seus aspectos, desde questões comunitárias e sociais, como os ritos de caça e guerreiros iniciáticos, o casamento, os funerais. Sempre teve relações com a natureza, sacralizadas pelo mistério e consolidadas pela dependência, de modo que todos os ritos que nos chegaram aos dias atuais têm seu nascedouro ancorado no mundo primitivo, especialmente nos cultos agrários. Estes, inclusive, tinham a função de obter melhores resultados nos trabalhos agrícolas. No princípio ou final das colheitas, queimava-se um boneco de palha, representando o deus da vegetação, conforme atesta o folclorista Câmara Cascudo, num ritual de profunda significação em que o fogo, “pela magia simpática, é o sol e a luz indispensáveis” ao cultivo da terra. 

A Igreja católica, romana de raiz e de tradição conquistadora, aos poucos foi se apropriando das festas pagãs, anexando-as ao seu calendário, desviando-as de seu sentido original e adaptando-as às suas conveniências doutrinárias. Desta forma, a exemplo dos festejos do ciclo junino, também a Malhação de Judas, tem sua origem na tradição pagã dos povos da Europa, Ásia e África, que festejavam as divindades protetoras da fertilidade e da colheita quando de aproximava a chegada do verão no Hemisfério Norte e que foram transportadas para o calendário católico.

Igreja toma partido

A tradição de malhar o Judas foi inteligentemente difundida pela Igreja católica como forma de divulgação ideológica e política. Ideológica porque apregoa o cristianismo católico romano como guia de orientação humana, e política por combater as prováveis razões revolucionárias que o Iscariotes teve ao se infiltrar no grupo de Jesus. O inimigo de Judas era o império romano, dominador e opressor de seu povo, não Jesus. Então, de uma extraordinária e bela festa pagã de adoração aos deuses da fertilidade, surge uma manifestação político-religiosa com a missão de incutir na alma popular a “execração ao gesto infame de Judas Iscariotes – traidor do Nazareno”, servindo como contraponto até mesmo à palavra insubmissa de Cristo em relação aos poderosos opressores de ontem e de hoje. 

Espetáculo tragicômico

No Brasil, o costume de malhar o Judas veio com os portugueses colonizadores e se propagou até o presente graças à irreverência e ao espírito ritualístico e brincante do povo brasileiro, especialmente o nordestino, que têm mais vivos e pulsantes os elementos ancestrais, as raízes que identificam a cultura nacional em sua formação mais significativa.

A malhação do Judas é, por natureza, um espetáculo que encerra características do teatro antigo, dos grandes autos populares. É uma comédia travestida dos elementos cartáticos da tragédia, conforme a teoria aristotélica, “a piedade e o terror”. Alguns podem se apiedar do sofrimento vivido por alguém que não haja merecido. Já o terror se manifesta ante a idéia de que o espectador poderia ele mesmo experimentar a calamidade da representação à qual assiste. Assim, o homem purga seus pecados através da punição de pecados de e em outrem, ainda que no simbolismo ritualístico, e se remete à condução de seus destinos, crente de haver renascido, puro, para novas provações.

No trato simplista das pessoas da comunidade, o Judas representa a personificação das forças do mal e sua malhação é o resultado da condenação tácita de gestos e procedimentos reprovados, exercidos por gente da política, da bandidagem e por membros do grupo social da circunscrição dos manifestantes. 

Ato político

Não há dados seguros de quando a politização da malhação do Judas teve início. Entretanto, indícios nos fazem crer que desde o seu surgimento, aqui no Brasil, se simula o enforcamento e a malhação de figuras impopulares, políticos e integrantes de governo. Sabe-se que quando da chegada da corte portuguesa ao Brasil, esta proibiu a realização dessa tradição quaresmal, principalmente por temer ajuntamentos populares, sempre insatisfeitos com o governo.

A palavra “traição” e o que dela se depreende têm um forte reflexo no imaginário do povo. Desse modo, Judas não mais é uma simples figura de traidor, mas significado de todo de gesto de traição ou atitude reprovada, condenando seus autores ao mesmo destino, recriado em forma de tragicomédia, numa legítima manifestação de protesto popular. 

Com graça e irreverência, longe da sisudez comum à ortodoxia conservadora da Igreja, a malhação promove a sacralização do considerado profano, abominando toda forma de traição e festejando coletivamente a palavra e os gestos de fé na felicidade possível.

Judas no Crato-CE

A incidência da tradição de malhação do Judas no Crato tem a idade e o tempero dos processos de colonização deste lado da região. São quase trezentos anos desde as primeiras investidas de domar as terras ricas e bravias do Cariri, habitat dos valorosos índios de tribo homônima, tendo como epicentro a Chapada do Araripe, universo mitológico, mágico e de abundância natural. E o Crato é a parte mais efervescente desse caldeirão cultural, onde, inclusive, aconteceram fatos marcantes da história do nosso país como a Revolução de 3 de Maio de 1817, no contexto da Confederação do Equador, e a experiência camponesa que mais incomodou a burguesia latifundiária da época, o Caldeirão do Beato Zé Lourenço, destruído em 1936.

Preservar e difundir a tradição

Precisamos reconhecer que temos história e que somos portadores de um rico manancial cultural a ser disponibilizado às novas gerações, sob pena de nos perdermos de nós mesmos, comprometendo nossa soberania em todos os aspectos. Econômicos e políticos, inclusive. 

O Estado tem a função de viabilizar os processos de fortalecimento da identidade cultural do povo, considerando cada peculiaridade regional, valorizando o saber ancestral e as novas linguagens dele originadas. A partir daí, teremos condições de dialogar em posição de igualdade com outros povos, culturas e costumes, numa espécie de banquete universal, fraterno, solidário e respeitoso, exercendo e sofrendo as naturais influências, sem agressão, preconceito ou tirania. 


*Cacá Araújo é professor, folclorista, dramaturgo e diretor da Cia. Brasileira de Teatro Brincante
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