sábado, 14 de abril de 2018

O sentido político da visita de Ciro ao ex-presidente Lula

Pouco importa que possa haver sentido eleitoral no pedido de visita de Ciro Gomes a Lula na carceragem da Polícia Federal em Curitiba.
O sentido político é maior do que qualquer benefício em votos que Ciro possa obter.
Claro que haverá pessoas de pensamentos miúdos e também aquelas que, com o coração dolorido diante de tamanha injustiça, sintam impulso de repelir o gesto de alguém que se portou com ressalvas e vacilações ao longo do processo de perseguição ao ex-presidente.
Mas a política não é o exercício puro de paixões, até porque seu objeto – a vida do povo brasileiro – não nos pertence individualmente.
Assim, é preciso examinar o que o gesto de Ciro contém.
E a primeira constatação é que ele aceita, com isso, que Lula tem o papel referencial incontestável na mente da população.
Em outras palavras, é impossível que uma candidatura tenha ares de centro-esquerda – e mais ainda, esse conteúdo – sem que assuma uma posição de solidariedade a Lula.
Ciro Gomes é teimoso e eu próprio sou testemunha disso. Em 2002, quando se avizinhavam as eleições, o receio de Brizola de que se armasse uma frente anti-Lula no segundo turno das eleições fez com que ele fizesse um apelo a Ciro, então candidato, para que desistisse em favor de Lula e ensejasse uma vitória já no primeiro turno (faltaram 8% dos votos para isso e Ciro tinha mais que isso, naquele momento).
A reação de Ciro, um homem gentil no trato pessoal, foi furiosa e eu me recordo que fez Brizola recolher-se e evitar o atrito público com ele, por responsabilidade política.
Engana-se quem acha que Brizola agia com o fígado, porque -lição que procuro seguir – o interese da população está acima dos nossos humores.
Não acho que Lula virá a ter reação diferente, por maiores que possam ser as mágoas com atitudes vacilantes de seu ex-ministro. Não é de sua natureza – veja-se como poupa até Marina Silva – e não é compatível com a sua capacidade política.
O segundo ponto é que, se supõe, o candidato do PDT não tenha tido a iniciativa de uma consulta prévia, antes de decidir pelo ingresso de um pedido judicial.  Que, aliás, nem sequer sabe se será aceito, tamanha a selvageria com que o Reich de Curitiba quer tratar Lula.
Finalmente, tal como aconteceu há uma semana em São Bernardo, é compreensível e natural que os cidadãos, os militantes, a massa popular, aja com a pureza de sua paixão indignada. Aos líderes, não.
Porque um líder vê mais longe e sabe que a resistência não é um gesto de desespero, mas de acumulação de forças.
E que é preciso ser mola, para saber ceder e poder voltar, ainda mais forte.
- no blog Tijolaço, por Fernando Brito

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