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Tradição das meizinheiras se mantém em comunidade do Crato

Pouco mais de 8Km da sede do Crato, na encosta da Chapada do Araripe, fica o Sítio Chico Gomes, nome que homenageia o primeiro prefeito da cidade. Por lá, correm cinco nascentes e três delas são habitat do Soldadinho-do-Araripe, ave ameaçada de extinção. A comunidade também se notabilizou por manter uma importante característica: o saber popular das meizinheiras. São três marias, cada uma com sua trajetória e maneira de fazer os remédios caseiros, mas que se uniram para preservar a fitoterapia aliada com a diversidade da flora local.

A medicina popular em Chico Gomes tem algo especial: os saberes das mães, avós e bisavós, que remontam ao conhecimento de grupos indígenas sobre o manejo e uso das plantas. Em 2012, cerca 20 mulheres foram reunidas na comunidade para compartilhar seus remédios caseiros e formar o grupo de meizinheiras Pé de Serra. No entanto, apenas três delas levaram para frente a tradição.

Valorização

De acordo com Manoel Leandro, professor, educador e artista popular, a ideia de reuni-las surgiu junto com o trabalho do Grupo Urucongo de Arte e Cultura, formado por jovens de Chico Gomes. "Fazíamos o trabalho de memória tentando revitalizar alguns saberes na comunidade, como danças e canções", explica. A partir daí, as mães destes garotos e garotas começaram a acompanhar as apresentações na cidade do grupo.

Com o entusiasmo das mães, os jovens resolveram organizar o primeiro encontro de saberes da medicina popular. "Pelo fato das mães nos acompanharem nas atividades, pensamos em algo que pudesse juntá-las. Algum elemento que possibilitasse a organização delas. Percebemos que o saber sobre ervas era algo comum", lembra Manoel.

"Pelo fato desse saber não estar sendo repassado para os mais jovens, pensamos que podíamos trabalhar vários objetivos importantes em um só trabalho. Nem imaginávamos que ia crescer tanto. O objetivo era revitalizar saberes importantes para a comunidade. Esse saber sobre ervas era fundamental que fosse repassado", completa Manoel.

Uma das responsáveis por dar continuidade ao trabalho com medicina popular foi a própria mãe de Manoel, a agricultura Maria Leandro, 71, conhecida como Rina. No seu terreiro aconteceu o primeiro encontro e, desde então, não parou mais. "Aprendi com minha vó. Fui criada sem mãe. Ela fazia chá de limão com alho para a gripe. Hoje, uso também a malva do reino, a hortelã. Para o lambedor junta o jatobá, imburana, espinho de cigana, cebola branca e alecrim", conta.

"Nascida e criada" em Chico Gomes, como ela mesma fala, Rina, cresceu plantando feijão, arroz, milho, fava e cana-de-açúcar. Da roça, veio o contato com as plantas, que depois levou para dentro de casa. Sua trajetória é parecida com a de Maria da Penha do Nascimento, conhecida Peinha, 65, sua vizinha, amiga e uma das meizinheiras. Seu contato com a medicina popular veio também por meio de sua vó. "Ela gostava muito de fazer remédio, mas eu não prestava muita atenção. Ela fazia chá, lambedor", lembra.

Um pouco mais abaixo da casa das duas, mora Maria Juraci dos Santos, 69, conhecida como dona Iraci. Natural de Barbalha, há 50 anos ela mora em Chico Gomes e teve que aprender os saberes da medicina popular para cuidar dos nove filhos. "Hoje cada um é dono de si", se orgulha a agricultora e meizinhera. Juntas, Iraci, Rina e Peinha mantém o grupo e foi desenvolvendo produtos a partir de oficinas e encontros, a partir de 2012.

Com o grupo formado, a Cáritas de Crato organizou oficinas para produção de sabonetes e pomadas a partir das plantas medicinais encontradas da Chapada do Araripe. Até hoje, as três mantém o trabalho e são estes os produtos mais vendidos por elas. "Não foi difícil aprender", conta Rina. "Aprendemos ligeiro demais", completa Iraci.

Para fazer o sabonete, elas tiram a casca da aroeira e cortam, deixando em uma garrafa de álcool por 15 dias. A glicerina é desmanchada em banho-maria e acrescentada com um pingo da essência que se formou a partir da planta. "É bom para a pele e ajuda na desinflamação", garante Iraci, ao apontar para uma ferida recém-curada em sua perna, lavada diariamente com o produto.

Apesar de ser o mais vendido, o sabonete não gera uma renda significativa para as três mulheres. "Eles ajudam a gente, mas não daria pra viver disso. É mais porque a gente gosta", conta Peinha. No entanto, elas admitem que, quando a comunidade recebe visitantes, o comércio destes produtos aumenta. Até mesmo turistas franceses levaram para casa seus sabonetes. "Hoje mesmo recebi uma encomenda de 50", anima-se Iraci.             

- no Diário do Nordeste
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