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COMUNIDADE DO GESSO: ASFALTO OU CALÇAMENTO


Por Alexandre Lucas*

O processo de urbanização não pode ser decretado dos gabinetes, mas antes de tudo pela analise do contexto histórico-social dos lugares e dos seus sujeitos.  É imperativo considerar esse aspecto como elemento fundante de uma perspectiva de urbanização social, tendo como eixo o desenvolvimento social que perpassa pela relação/interação entre moradores, tempo e espaço visando à qualidade de vida nos seus múltiplos aspectos, como ludicidade, acessibilidade, segurança, saneamento básico, redução de danos ambientais e integração com a cidade e os seus sujeitos sociais.   Neste contexto é preciso debater uma questão que pode fazer uma grande diferença na qualidade de vida das pessoas: asfaltar ou calçar eis a questão.  A temática merece aprofundamento e posicionamento alinhado com a defesa do conceito do “bem viver”.
Neste contexto, peguemos como centro das preocupações e reflexões a comunidade do Gesso, na cidade do Crato. A localidade fica situada no miolo de quatro bairros: Centro, Pinto Madeira, Santa Luzia e São Miguel.  A comunidade está a cerca de dois quarteirões do centro comercial e ao mesmo tempo carrega um histórico de invisibilização, exclusão, vulnerabilidade, estigmatização social e ausência de planejamento urbano.
Há algum tempo vem sendo cogitada a possibilidade de asfaltamento da via paralela a linha férrea, especificamente na rua Monsenhor Juviniano Barreto, interligando o São Miguel ao Centro, o que em tese reduz fluxo de carros das outras vias.
No primeiro momento, o asfalto aparece como símbolo (equivocado) de modernidade e desenvolvimento pelas narrativas recorrentes das elites econômicas.
Por outro lado é questionável como politica de urbanização e integração comunitária o uso do asfalto. Vejamos alguns pontos para se contrapor o uso do asfalto: amplia o fluxo e a velocidade de veículos expandindo o risco de acidentes e retirando a rua como um dos poucos espaços de ludicidade das crianças. As ruas das periferias são espaços de misturar gente, de ocupação criativa e do brincar, o que só é possível com o fluxo reduzido de veículos.
O asfalto esquenta. Esse tipo de superfície tem a capacidade de guardar calor durante o dia e liberá-lo durante a noite, o que gera insatisfação térmica, aumento do consumo de água, energia elétrica e desagaste físico.  O asfalto também impermeabiliza o terreno impedindo que as águas das chuvas cheguem ao solo e aos lençóis freáticos, o que favorece também a enchentes e alagamentos.
São inúmeros os argumentos para definir junto à comunidade outras possiblidades de urbanização que levem consideração à necessidade de construir narrativas e intervenções urbanas tendo como centralidade à qualidade de vida em contraposição todas as problemáticas ambientais e de desintegração comunitária que o asfalto pode gerar.
Possivelmente alinhar o calçamento, a outras estratégias que proporcionem a calmaria, diante deste fluxo atormentado do capital e que harmonizem o espaço do viver com a menor quantidade possível de impactos ambientais é uma necessidade de que se faz constante.
Cinturão verde composto por arvores frutíferas no perímetro da linha férrea, cobertura e iluminação da quadra e das vias de acesso à comunidade do Gesso, fortalecimento e ampliação das praticas e dos espaços de ocupação criativa da localidade, adequação do sistema de saneamento básico e integração dos espaços que separam lugares devem ser bandeiras para compor o urbanismo do bem viver.  

*Pedagogia e integrante do Coletivo Camaradas.  
- foto no site Cariri Ceará
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