OS PECADOS DA ESQUERDA

por Astrid Prange de Oliveira
Caros brasileiros,
"Até os 30 anos de idade, você quer ser socialista, depois muda para capitalista." Nunca me esqueci dessa frase dita por um empresário brasileiro que entrevistei muito tempo atrás. Devagarzinho, ela foi conquistando o meu subconsciente, e agora, chegou a hora de assumir que meus sonhos socialistas se dissolveram.
Não é porque me sinto mais atraída pelo populismo de direita. Nem por um capitalismo selvagem. É porque a esquerda entregou muitas bandeiras políticas para a direita. De repente, um Donald Trump da vida levanta a bandeira contra o livre comércio e a globalização. E uma ditadura como a China quer promover o multilateralismo e abrir os mercados.
A vitória de Trump nas eleições dos Estados Unidos dois anos atrás mostra que o sonho de um mundo melhor e mais justo ainda vive. Mais ele foi capturado pela direita. Para mim, o pior não foi o triunfo do Trump. Foi a derrota do Partido Democrata.
Foi uma derrota desnecessária, causada pelos próprios democratas. Pois Trump saiu ganhando com a longa disputa política entre os candidatos Hillary Clinton e Bernie Sanders, o qual saiu derrotado das primárias do Partido Democrata. O debate programático sobre a direção do partido durante a campanha – mais para o centro ou mais para esquerda – foi um dos motivos que fizeram os democratas perderem as eleições.
A vitória de Trump foi a segunda grande derrota do centro político e da esquerda em pouco tempo. O primeiro ponto de viragem foi o referendo sobre o Brexit, em 23 de junho de 2016. A dramaturgia parece seguir sempre o mesmo esquema: brigas internas e subestimação do adversário político resultando em fracasso nas urnas.
É difícil e doloroso assistir a esse espetáculo. Especialmente olhando para Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista britânico. Ele não desmentiu as mentiras espalhadas pelos chamados "Brexiteers". Eles alegaram que o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido melhoraria com a saída do país da União Europeia. Que a imigração estava fora de controle. E que era mais vantajoso negociar acordos de livre comércio do que permanecer no mercado comum da UE.
Para mim, um politico de esquerda que não alerta para a falta de milhares de médicos e enfermeiros no NHS que deve ser provocada pela saída da UE está entregando conquistas sociais básicas. Um líder da oposição que não desmente os cenários cor-de-rosa dos "Brexiteers" é corresponsável pelas graves consequências econômicas do Brexit que o Reino Unido já está começando a sentir.
No Brasil, como mostra a atual briga política sobre o programa Mais Médicos, o atendimento básico à população também virou uma questão ideológica. Mas a critica de "colaboração com a ditadura comunista cubana" é uma coisa, e a apresentação de soluções, outra.
Assim como na campanha para o Brexit, a direita usa os problemas do sistema de saúde para se promover politicamente no Brasil. E a esquerda? Ela apostou na "importação" de mão de obra e conseguiu resolver o problema gravíssimo da falta de médicos, mas o preço era a dependência de um governo estrangeiro.
Antes ter tido sucesso e agora se encontrar na defensiva – essa é a situação de muitos partidos de centro esquerda. O Partido Social Democrata da Alemanha, que governa juntamente com a União Democrata Cristã, da chanceler federal Angela Merkel, também passa por isso.
Pois a ascensão política do partido de direita Alternativa para a Alemanha mudou a agenda política. De repente, são os populistas que muitas vezes colocam o dedo na ferida, uma tarefa que até pouco tempo atrás era marca registrada da esquerda. Diagnósticos não faltam. O que faltam são soluções verdadeiras, que não aparecem apenas quando servem a algum interesse político.
Confesso que me cansei desse jogo. Não quero mais ler inúmeras notícias sobre as "decisões erradas" de Jair Bolsonaro, Trump ou dos premiês Theresa May, do Reino Unido, e Viktor Orbán, da Hungria. Quero ler também notícias sobre iniciativas da oposição para tentar criar alternativas aos rumos políticos atuais. Quero que a esquerda e o centro saiam da defensiva.
Os meus sonhos socialistas acabaram. Mas minha convicção política de que é preciso se unir contra populistas em vez de imitá-los ou tentar agradá-los se mantém.
Astrid Prange de Oliveira foi para o Rio de Janeiro solteira. De lá, escreveu por oito anos para o diário taz de Berlim e outros jornais e rádios. Voltou à Alemanha com uma família carioca e, por isso, considera o Rio sua segunda casa. Hoje ela escreve sobre o Brasil e a América Latina para a Deutsche Welle. Siga a jornalista no Twitter @aposylt e no astridprange.de 
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