PESQUISAS E PRÁTICAS MOSTRAM DISTÂNCIA ENTRE MULHERES E HOMENS NO MERCADO DE TRABALHO

Aos 44 anos, pela primeira vez na vida, Francisca Honório Arruda tenta se inserir no mercado de trabalho formal. Uma vontade que ela guarda há, pelo menos, 27 anos – tempo em que manteve o casamento. “Eu tenho muita vontade de trabalhar”, expõe, pela “confiança na independência financeira”. Recém-separada, Francisca tem “fé que esse ano” consegue um emprego. “O machismo dele (ex-marido) não permitiu que eu trabalhasse fora: (ele dizia) ‘Mulher minha não é para trabalhar fora’”, relaciona. 
Francisca, que borda toalhas, faz unhas e vende joias como fonte de renda, procura vaga “em salão de beleza, em restaurante, em lojas”. Faz seis meses que distribui currículos; e nada. “Geralmente, eles precisam de homens. Dificilmente tem vagas para mulheres”, atesta. A idade e a falta de experiência, ela considera, também dificultam. Mas Francisca, que conta com o salário da filha mais velha para ajudar nas despesas da casa, recomeça, a cada “não há vaga”, o caminho até o emprego com carteira assinada.
É um longo percurso histórico a ser cruzado, por uma cultura de desigualdades de gênero. No Brasil, as mulheres são mais da metade da população: uma parcela significativa, mas não refletida no mercado de trabalho. Na economia nacional, o retrato feminino é distorcido: elas representam 43% da força de trabalho, ocupam 37,8% dos cargos gerenciais e ganham, em média, 25% menos que os homens na mesma função.
As informações são do relatório Women, Business and the Law 2018  (“Mulheres, Empresas e o Direito 2018”), produzido pelo Banco Mundial. Divulgado em maio deste ano, o documento é a mais recente edição de uma série bienal, iniciada na última década e que mede os obstáculos jurídicos enfrentados por mulheres do mundo inteiro na participação em atividades econômicas. O relatório demonstra “como as leis influenciam a decisão das mulheres de abrir e administrar empresas ou obter empregos”.
A violência e o assédio sexual também no emprego, a falta de acesso ao sistema judicial e a diferença de remuneração entre os gêneros em uma mesma função ampliam a distância entre homens e mulheres e mantêm as desigualdades no mercado de trabalho. E a falta que elas fazem nesse mercado representa até 25% a menos de força produtiva em uma economia.
Ao analisar 189 economias mundiais, o estudo conclui: “Nenhuma economia pode atingir seu pleno potencial sem a plena participação de homens e mulheres. As mulheres, que representam metade da população mundial, têm um papel igual ao dos homens na promoção do crescimento econômico”. As perdas são maiores em países em desenvolvimento, estima-se, e a redução ou a discriminação da participação feminina na economia prejudica o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, a soma das riquezas produzidas) em um país como o Brasil.
O Brasil precisa acertar o passo com o tempo do crescimento econômico. Acelerar políticas públicas e mudanças culturais para acompanhar o desenvolvimento social. É um longo percurso histórico a ser cruzado e ultrapassado, por desigualdades de gênero. Como Francisca Honório, mãe de duas filhas, se dispõe a fazer, pela primeira vez na vida, até conseguir o lugar que ela quer no mercado de trabalho: “Um trabalho digno, honesto”.
Números

189 economias mundiais compõem o atual estudo do Banco Mundial
104 países proíbem, em leis, que mulheres exerçam alguns tipos de trabalho por serem mulheres 

18 países permitem que o marido impeça a mulher de trabalhar formalmente

7 indicadores conduzem a análise do relatório do Banco Mundial: acesso às instituições, uso da propriedade, acesso ao emprego, incentivos ao trabalho, acesso aos tribunais, acesso ao crédito e proteção da mulher contra a violência. 

Fonte: Relatório "Mulheres, Empresas e o Direito 2018".

 

(no jornal O Povo)
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