MORTE DE CHICO MENDES COMPLETA 30 ANOS

“Como foi possível nascer e crescer no meio da floresta, num canto verde que cremos mais propício aos bichos e às plantas, um exemplar tão fecundado da espécie humana?”, questiona o jornalista Zuenir Ventura em seu livro Chico Mendes – Crime e Castigo –, fazendo referência à vida e morte do seringueiro, ambientalista e líder sindical da pequena cidade de Xapuri, no Acre (AC), que dá nome à obra.
Se as mortes dos chamados povos da florestas soam distantes para os que vivem no eixo centro-sul do país, o assassinato de Chico Mendes que, neste sábado (22) completa exatos 30 anos, conseguiu romper de certa forma com essa indiferença, marcando, até hoje, a atualidade e o legado de sua luta pela Amazônia diante das constantes ameaçadas que a causa de quilombolas, indígenas, ribeirinhos e sem terra ainda enfrentam em um país dominado por interesses dos latifundiários.
O que muitos lamentam, no entanto, é que apenas após o dia 22 de dezembro de 1988, ano esse também marcado pela promulgação da Constituição Federal, o país tenha tomado conhecimento da luta de Chico Mendes, que acabara de ser acometido pela tragédia de uma morte por ele próprio já denunciada, mas que, por outro lado, despertou a preocupação mundial por uma consciência ambiental.
“Depois dele, vieram a Eco 92, o Protocolo de Kyoto, o Acordo de Paris. O meio ambiente virou prioridade. O mundo passou a se preocupar de fato, criou tecnologias limpas, mudou hábitos de consumo. Pouca gente se dá conta, mas o mundo se modificou drasticamente nestes 30 anos”, afirma a antropóloga Mary Allegretti em reportagem à Agência Senado.
Uma das responsáveis por lançar Chico Mendes ao mundo e aproximá-lo das ONGs estrangeiras, Mary destaca que “foi o assassinato de Chico Mendes que abriu caminho para todas essas mudanças” que ocorreram a partir da pauta de preservação ambiental, agora ameaçada diante, por exemplo, da possibilidade do Brasil deixar o Acordo de Paris.
A chegada de Jair Bolsonaro (PSL) à presidência da República e os anúncios de descontinuidade de certas políticas, como da demarcação de terras indígenas e do avanço do agronegócio em seu futuro governo, foram ressaltados com preocupação pelos participantes do Encontro Chico Mendes 30 anos: Uma memória a honrar, um legado a defender, realizado na cidade natal do ativista, entre os dias 15 e 17 de dezembro, que contou com a presença de mais 500 pessoas, entre elas, dos companheiros de luta do sindicalista.
“Tomara que as pessoas tenham consciência e que tenham aprendido que elas não vivem sem a natureza”, desejou Lívia Mendes, bisneta de Chico Mendes, em carta lida por ela no dia 16, aniversário de seu bisavô, inspirada para alertar o futuro chefe do Executivo, Bolsonaro, segundo explicou ao jornalista da Rádio Brasil Atual e da RBA, Glauco Faria, que acompanhou o encontro.
Renovação da resistência 
Um dos principais legados de Chico Mendes é o chamado ’empate’ – quando os povos tradicionais davam as mãos para evitar que uma área fosse desmatada, impedindo assim a destruição de parte da floresta Amazônica em pleno avanço da agropecuária a partir dos anos 70. Hoje essa estratégia de luta vem sendo utilizada como base para a renovação das táticas pacíficas de resistência, necessárias para frear retrocessos que possam ocorrer no atual e no próximo governo.
Uma melhor tradução, segundo descreve o jornalista Glauco Faria, está na frase “ninguém solta a mão de ninguém” que viralizou após a eleição de Bolsonaro. A frase ensaia de forma verbal a luta permanente pela preservação ambiental e dos povos tradicionais entre os antigos e novos ativistas, como ressalta a Carta de Xapuri, lida pela atriz e ativista Lucélia Santos.
“Ninguém abandona a defesa dos povos da floresta! Ninguém desiste do legado de Chico Mendes! Ninguém solta a mão de ninguém!”, crava a carta promovendo o empate contemporâneo pela união das lutas sociais.
(*) Com informações do jornalista e correspondente direto de Xapuri (AC) da Rádio Brasil Atual e da RBA, Glauco Faria
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