Artigo: “UM MURO DE ÓDIO”, por Marcos Leonel



O Tratado de Potsdam dividiu Berlim entre os aliados, assim como o restante da Alemanha. Em 13 de agosto de 1961 um muro se ergueu sorrateiramente na madrugada, ele se tornaria o símbolo da Guerra Fria, foi capaz de separar vidas e pessoas, mas sem nenhum poder de extinguir a sordidez do extermínio ideológico, que atravessa a história e se traveste de pessoa de bem, acredita em Deus e invoca o diabo para eliminar a oposição em todos os territórios em que se apossou do poder. O Muro de Berlim foi derrubado em 9 de novembro de 1989.

Mikhail Gorbachev sepultou a Guerra Fria com as doutrinas perestroika e a glasnost, que promoveram aberturas econômicas e tiraram as mordaças tirânicas que enferrujavam as cortinas de ferro. A União Soviética foi se dissolvendo em liberdade, enquanto o comunismo era metamorfoseado em zumbi, sendo que a última vez que foi visto foi num episódio da série “Walking Dead”, em que ele morre mais uma vez, trespassado pelos olhares distraídos da audiência, que come porcarias e vai ao banheiro. No entanto, a ideia de separar povos por muros continua de pé e com a mesma desenvoltura ideológica de extermínio. A história continua marcada pela podridão da alma do poder, nessa nova ordem mundial existem cerca de 70 muros construídos para destruir.

As guerras são tipificadas pelos escombros, pela fase terminal, pela interdição do espírito, bem como pela fundamentação do grotesco, através da bestialização do homem e suas ações desprezíveis. Todas elas geram entidades decaídas, que trabalham na escuridão macabra, redirecionando reencarnações dantescas, para as tramas de exploração dos parvos e do aniquilamento dos relutantes. Separar, dividir, para depois subtrair, é uma das formas de imposição das hordas, dos escroques, dos salteadores e da gentalha desprovida de princípios. Os alicerces desses muros ferem a carne da humanidade. Foi essa estirpe que cunhou as moedas de Judas e criou o ambiente soturno para que Seth matasse o seu irmão Osíris. Entre Israel e a Palestina existe um muro erigido com sangue e humilhação. Entre os Estados Unidos e o México há um arquiteto racista que já estendeu seu opróbio de Tijuana ao golfo do México. Na Europa, a extrema direita já está concretando suas colunas com as pedras doentias do neonazismo.

Nas terras dos índios Waiãpi e de mais de outros 300 povos indígenas está sendo construído um muro de ódio de forma sistemática, com a infertilidade própria dos féretros e com a argúcia desértica dos facínoras. O discurso do ódio saiu dos bordões da campanha eleitoral e agora toma forma descaradamente nos campos e nas cidades. O governo atual é um porão de tortura da Ditadura Militar, infestado de ratos, que têm o pretexto de roer os ossos de um comunismo imaginário, que na realidade serve de escudo para o racismo e todos os sentimentos baixos que alimentam a existência dos canalhas que rasgam a constituição, violam os direitos humanos, massacram os pobres, pregam separatismos, e defendem comportamentos medievais pautados em religiosidades sinistras, que têm o dízimo como credo e o teatro de curas e exorcismos como sacramentos. Esse muro é um presságio sombrio de uma guerra civil.

Aquele mesmo que fraquejou quando teve uma filha mulher é o mesmo que homenageia ditadores sanguinários, como Pinochet, e o mesmo que tem um torturador como ídolo. O seu plano de governo é dividir o povo brasileiro e exterminar os “comunistas”, como se tivesse que reviver um passado de horror, para poder conseguir algumas migalhas de respeito dos seus comparsas. A virilidade em chafurdar a honra dos brasileiros, fazendo piada com índio assassinado, com estudante que apanha da polícia quando protesta, com filho que perde o pai na tortura, com pobre em aeroporto, fazer arminha em nome da violência, mentir de forma compulsiva, e tantas outras descomposturas horripilantes, indignas para um chefe de Estado, é motivo para derrubar qualquer presidente. Mas não agora, justamente no momento em que o Supremo saiu com os cachorros para eles defecarem na Praça dos Três Poderes, o Congresso está concentrado em suas partilhas e o Ministério Público está ocupado em varrer a areia da praia.


  Por Marcos Leonel, Cidadão do Mundo 

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