MORAR NA PERIFERIA É VIVER COM INJUSTIÇAS

MORAR NA PERIFERIA é viver cercado de pedágios, aquelas injustiças não escritas que você aprende a aceitar. Pedágio é o que não falta por aqui, de forma que nunca conheci um “mano de quebrada” que nunca tenha sido barrado por um.
Alguns dos pedágios que lembro de pronta-entrega são: 1) os três anos de fundamental estudando na escola de lata e sem professor de português, 2) a primeira vez em que a polícia enfiou uma arma na minha cara porque eu tava voltando pra casa bêbado do meu aniversário de 16 anos, 3) além das várias ocasiões em que o setor privado deixou escapar “o lugar dessa gente não é aqui”.
No último cargo de liderança que exerci numa multinacional, por exemplo, não foram poucas as vezes em que soube de contratações barradas não por critérios de formação ou competência, mas pelo CEP do candidato corresponder a uma área supostamente periculosa — acontece mais do que você e eu sabemos.
Talvez eu nem tenha noção do quão revoltante esse texto possa ser pra quem não vive o dia a dia do lado de cá, mas é assim que a banda toca por aqui: ou você se conforma em pagar esses pedágios calado ou o sistema te engole. Tipo as regras de um reality show.
Essa ideia de pedágio surgiu de algumas reflexões sobre um termo bastante ameaçador que meu pai costumava usar quando eu era mais novo, o tal do “Se os hômi te pegar…”. Pedreiro por profissão e criado na ditadura, era comum ele fazer esse tipo de citação quando achava meu cabelo grande demais, as orelhas furadas demais ou o horário na rua inadequado demais. Ele nunca fez essas coisas, sempre visando seguir o perfil do homem trabalhador e pai de família com nome e ficha limpos.
Então, prenderam meu pai.
Foi estranho passar toda uma tarde correndo de cima para baixo para tirá-lo de uma cela de delegacia. Em um momento estou ajustando o despertador para acordar num bom horário para quem trabalha de madrugada, e cinco minutos depois estou trocando de roupa porque meu pai foi preso e ninguém sabia ao certo o motivo.
Eu não estava quando os oficiais esmurraram o portão eletrônico. Minha irmã, maior de idade, disse que pareciam dispostos a “derrubar a casa” atrás do nosso pai para fazer perguntas relacionadas a uma suposta denúncia de agressão. Ele estava ocupado em uma obra nas proximidades e demoraria chegar. Segundo os vizinhos, eles entraram pra vasculhar a casa com celulares em mãos e sem a apresentação de um mandado.
É bastante estranho haver uma denúncia de agressão numa rua em que todo mundo se fala. Até quando as confusões acontecem de verdade, chamar a polícia é uma opção considerada drástica. Só que a história fica mais estranha daqui pra frente.

Insatisfeitos, fizeram perguntas até descobrirem o local onde meu pai enchia uma laje. Foram até lá e tiveram exatamente o mesmo modus operandi sem tirar e nem pôr. Disseram que havia uma denúncia de agressão naquele endereço e que teriam de levar meu pai. Ele não resistiu à prisão, nem mesmo quando os oficiais negaram que ele fosse até em casa pegar seus documentos, com ou sem escolta. Levaram meu pai e o enfiaram numa cela para só então revelarem ao ajudante que foi com ele até a DPo verdadeiro motivo do suposto flagrante: falta de pagamento de pensão. Detalhe: somos únicos filhos, adultos e moramos com ele.
Por que não nos abordaram pelo motivo certo desde o início? A polícia pode agir dessa forma? Eles podiam impedi-lo de pegar os documentos em casa ou avisar a família do que estava acontecendo?
Não nos perguntamos sobre isso em momento algum. Já é um consenso da periferia que a polícia não tem obrigação de agir sob a lei. Inclusive, já tive amigos que foram esbofeteados por não chamarem o fardado de senhor, isso pra não falar nos que apanharam por se negarem a comer um baseado quando pegos apenas com a quantia de usuário.
Consegui um carro pra irmos até a DP tentar esclarecer o mal entendido para o delegado. Era uma denúncia de pensão antiga, que minha mãe nem mais lembrava que havia feito. Depois da queixa, ela saiu do estado e os filhos preferiram morar com o pai. Na minha cabeça, os filhos explicarem o mal entendido para o delegado seria o suficiente para tirar o pai dali e depois regularizar os pormenores no fórum. Eu voltaria pra casa para acabar uns freelas de revisão de texto e minha irmã teria tempo de fazer uma das provas finais da faculdade.
Foi a minha vez de estar errado.
O atendimento foi desumano. Tínhamos os documentos e as palavras dos que seriam beneficiados, mas o tempo todo fomos observados e respondidos de um jeito torto. Fomos vistos como se tentando atrapalhar a “justiça” deles, praticamente suspeitos por motivos de herança genética.
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Ficamos ali, delegacia vazia, aguardando a cópia do alvará de prisão por cerca de duas horas. Também disseram que o delegado “já, já nos atenderia”, mas não vi a cara do sujeito até hoje. Disseram que poderíamos levar comida ao nosso pai, que ainda estava em desjejum. No final do dia, soubemos que só metade do que compramos chegou à cela, e o que chegou foi dado no chão, feito uma prova de exército na savana.
A cela da DP em que vi meu pai fedia a urina. Dava para sentir na primeira virada de corredor. Um cheiro insuportável que não presenciei nem nos banheiros dos botecos mais podres em fim de noite. Havia a cela, meu pai, um cara que não conhecia e o vaso sem tampa nem boia. A pessoa que fosse fazer suas necessidades teria de ser vista pela outra, pois também não havia sequer uma toalha ou coisa do tipo para garantir o mínimo de privacidade.
Desde então, me pergunto se existe vigilância sanitária para esse tipo de local, pois até o mais frio dos fiscais teria um ataque cardíaco depois de se entorpecer com um cheiro tão agressivo.
Por sorte (ou por uma coincidência bastante estranha), um advogado estava de prontidão para eventuais casos na recepção da DP. Ele disse que demos sorte. Então, sem pensar duas vezes, o contratamos para não correr o risco do fórum fechar e nosso pai ser transferido para alguma prisão que dificultasse mais ainda o processo todo. Juntamos nossas economias: um tirou FGTS, outro tirou a grana das contas de luz, água, telefone e alguns parentes também nos ajudaram com a grana.
Já era noite quando saímos do fórum. Prevendo novos problemas, entramos em contato com um amigo que é “brother” dos caras do DP, nome forte. Ele não só conhecia o lugar como se comprometeu a ir até lá para saber o que estava acontecendo. Na esquina da DP o encontramos com os funcionários do próximo turno, todos riam e conversavam alto com cheiro de cerveja e carne assada. Todos me cumprimentaram, felizes. Disseram que não sabiam que eu era amigo do amigo deles, que “a partir dali seria rapidinho”. Deixei eles no bar e segui meu caminho com a canetada que precisava do juiz do fórum.
Estou no balcão quando pego no ar uma conversa dos atendentes aos risos. “Vamo liberar o velho ou maltratar mais um pouquinho até amanhã?” — você ainda lembra dos pedágios que às vezes temos que ignorar? Pois é. O cara me vê no balcão e diz que soltarão meu pai o quanto antes, porém sem previsão de tempo. Quase passa na minha cabeça que o “velho” do qual estavam se referindo podia não ser o meu, mas pelos acontecimentos do dia eu já não tinha tanta certeza. Os caras do bar chegam logo em seguida, e a partir daí bastaram 10 minutos para aceitarem a papelada e a velocidade do trampo começar a fluir.
Os caras do bar me cumprimentam novamente e dizem que eu deveria agradecer por ter caído em uma das delegacias mais “de boa” da região. Quase tenho medo deles estarem certos, mas não vale a pena pensar sobre isso. Foram seis horas de abuso de autoridade, e o mais duro é saber que o caso do meu pai se resolveu consideravelmente rápido para os padrões de atendimento da periferia. Voltamos pra casa com meu pai no carro do amigo “costas quentes”. É provável que não tenhamos passado maiores perrengues graças a ele. Eu olho pro meu pai, e ele está nitidamente quebrado com sua primeira experiência num sistema mais “terra sem lei” do que ele podia esperar.
Já com o sangue esfriando, encaro a cena cheio de dores no corpo. Os pedágios que nos cercam são ferramentas de um sistema que amassa diariamente com raiva e ódio, sempre torcendo para nos enchermos e darmos a justificativa que eles querem pra cuspir uma bala na nossa cabeça.
E a história é essa, pontos que dariam uma bela distopia, se não fosse pelo fato de distopia não ser um gênero, mas a realidade da periferia e das favelas brasileiras. Não vou mentir, escrevo esse relato com o receio de quem não aceitou esse pedágio de boca calada. Mas é isso, passei a acreditar que uma solução só sairá no momento em que outras histórias silenciadas vierem à tona. Afinal, ilegais ou não, pedágios só funcionam quando respeitados. Tá na hora de se unir e abrir caminho, pois o caso da minha família não é exceção, mas a regra.
(No The Intercept Brasil)
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