Artigo: O CAJADO E A PEDRA, por Marcos Leonel


(Reprodução/Twitter)

Um dos mais notáveis pensadores dos tempos atuais, Jean Baudrillard, tem uma vasta obra em que ele analisa a imagem e os objetos, como um processo de interação capaz de produzir efeitos devastadores na sociedade. Em seu livro fundamental: “O sistema dos objetos”, ele defende a ideia, entre outras, de que uma imagem é sempre um simulacro da realidade, mas um simulacro carregado de significados e pronto para ser consumido pelo ser social, sentado em sua poltrona e acolhido na calmaria de sua devoção impermeável.

O imediatismo das imagens em profusão acelera o tecido da História a tal ponto que a fragmentação da realidade funda o seu império de ilusões e domínios. Jean Baudrillard afirma, em outra obra essencial: “A ilusão vital”, em comentário sobre a História que “Em vez de buscar perspectivas novas, a História parece estar se estilhaçando em fragmentos dispersos, e períodos de acontecimentos e conflitos que pensávamos pertencer ao passado estão sendo reativados”. Esse fenômeno pode ser detectado numa das imagens mais icônicas da História mais do que recente do Brasil: a documentada e já fossilizada imagem do presidente ajoelhado diante do bispo Edir Macêdo, recebendo um simulacro de unção.

Um dos mais habilidosos estelionatários da fé é, hoje, dono de uma das maiores reservas eleitoreiras do Brasil, uma vez que a Igreja Universal de Deus é um dos maiores currais eleitorais da terra de Carmem Miranda, símbolo e simulacro permanente do pertencimento tupiniquim. Sim, um entre três brasileiros anda com uma penca de bananas na cabeça, cantando e dançando, vivenciando uma vida que não é sua, alheio à realidade, entregues a uma tela digital, que pode estar passando, inclusive, “Nada a perder”, parte 2 de um embuste interminável. É impossível não saber quem é Edir Macêdo no jogo do bicho, mas claro que os devotos não jogam, a não ser a própria liberdade na prisão do secularismo dos templos de esquina.

Mesmo com toda a velocidade dos acontecimentos e com todo o aparato de dissimulação do passado, que volta em forma de farsa, não é preciso ser um arqueólogo das verdades ou dos acontecimentos, para encontrar a genealogia peçonhenta de Edir Macêdo, são várias imagens documentadas sobre isso postas na sagrada nuvem virtual, um dos mais sofisticados inventos da humanidade. Em um desses vídeos, veiculado no Jornal Nacional, apresentado por Sergio Chapelin, com matéria do repórter Francisco José, o pastor dissidente Carlos Magno entrega todo o esquema de extorsão dos fiéis. A gravação registrada por ele mostra o bispo ensinando as técnicas de assalto, de como tirar dinheiro das ovelhas, do gado, das cabras, das pedras.

A filmagem foi de um encontro da cúpula da Universal, em Salvador, após uma partida de futebol, entre o time dos descuidistas e o time dos punguistas. Nesse momento, Edir Macêdo demite a dignidade humana e assume o papel real do falso profeta, ensinando como usar a autoridade de Deus e vários outros recursos evangelizadores de submissão e opressão, tal qual um lutador de MMA que imobiliza seu adversário no chão bárbaro das arenas medievais, em luta transmitida em canais por assinatura, devidamente pirateados pelas milícias suburbanas.

Numa passagem desse episódio o bispo afirma que o povo quer ver um pastor com coragem, com coragem de brigar com o demônio, com coragem de pedir, se um não der, muitos outros darão. Para ilustrar o poder da palavra de Deus, ele desdenha e usa o exemplo do cajado de Moisés, que abriu o mar vermelho e tirou água de uma pedra. Esse é o cajado da fé, que será vendido por mil reais ao idiota sentado na poltrona. Esse é um dos personagens da foto, o outro não precisa falar nada, só que ele já está em campanha eleitoral para o próximo mandato. Diante do crescimento da sua impopularidade, ele precisa da ajuda do bispo, que tem a missão de tirar o demônio de dentro do próprio demônio.

# por Marcos Leonel, cidadão do mundo

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