Artigo: “Os porões da independência”, por Marcos Leonel


Uma data surreal, um presidente capacho, uma continência calhorda a uma bandeira de um país fora-da-lei, dois mestres da patifaria nacional, e uma meia nação posta de quatro, para comer sua meia ração de patriotismo imbecilizado. Essa é a principal imagem do desfile de 7 de setembro, em Brasília, um simulacro da democracia. Tudo indica que esse seria mais um dia patético na república dos balangandãs, dos carros alegóricos e da insalubre seriedade das pessoas de bem. Só que não.
O fato do presidente homenagear os Estados Unidos no dia da “independência” do Brasil, não só revela o entreguismo do atual governo, como também exalta civicamente a síndrome brasileira de cachorro abandonado com sarna na rua dos cabarés. Porém, não é só isso que envolve a áurea mais sombria do Brasil, desde a Ditadura Militar. O que Bolsonaro pleiteia é a continuidade do apoio americano na finalização do golpe iniciado pelo facínora Temer, só que agora com os militares na rua e a declaração de uma guerra civil pregada nos pulmões da presidência, como um enfisema de alta periculosidade.

A evocação anacrônica da doutrina Truman, feita constantemente por Bolsonaro, é um lampejo tardio de uma mente entalada no bojo sanitário da história, em que Olavo de Carvalho, o guru do grude, deposita suas bravatas com lombrigas, dia sim e dia não. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, em 12 de março de 1947, Harry Truman defendeu a tese, em nome dos bons princípios, da democracia e de Deus, de que era necessário impedir a expansão do comunismo nas nações consideradas fracas na economia e nos aparatos bélicos. Assim nasce o plano Marshall de reconstrução da Europa e em seguida o protagonismo terrorista americano, entre outros, na Grécia, no Haiti, na Indonésia, no Vietnã, no Camboja e no financiamento escancarado das ditaduras na América Central e América do Sul.

Brasil, Argentina e Chile foram países “fracassados” em que os golpes militares, em nome da democracia e contra o comunismo, foram na verdade crimes contra a humanidade, com direito a milhares e milhares de assassinatos, de torturas exultantes, de perseguição política e social das minorias, uma cruzada medieval de comportamento para o controle das populações e da garantia do controle total do poder. O apoio do governo americano, através da CIA e do financiamento bélico, foi fundamental para a instauração do terror e a consequente garantia que tudo ficaria encoberto, incluindo não só a hediondez dos regimes totalitários, como também a imensa coleção de escândalos de corrupção, que deram origem a patrimônios bilionários de ditadores e seus comparsas militares e civis.

Durante a Ditadura Militar brasileira uma verdadeira horda de bandidos de bem ficaram bilionários, entre eles Silvio Santos, o que contraria a premissa cretina da meritocracia, pois se ele não fosse beneficiado pelo ditador general João Figueiredo, jamais teria se transformado em bilionário sendo camelô. É óbvio que vários setores da chamada elite brasileira sonham com a volta do passado em forma de farsa. Bandidos como Edir Macêdo preparam a chegada ao reino sagrado da ladroagem.
Acontece que na década de 60, do Século XX, o Brasil não significava absolutamente nada no cenário político internacional. Hoje o país é a nona economia do mundo e, até pouco tempo, um país em vias de transformação civilizatória. O que torna um golpe militar uma declaração de guerra civil, pois a reação da outra metade da nação, que anda erguida, não será a mesma de antigamente. Muito menos outras nações ficarão neutralizadas, como na época da Guerra Fria. Esse é o desespero político do retrocesso, jogar o país no caos, provocar a volta da penúria nacional, e criar a imagem demoníaca da esquerda, para que o cenário do subdesenvolvimento se instaure e justifique a insanidade dos crimes contra a humanidade, em toque de caixa e passos sorrateiros, num verdadeiro desfile de patifarias.

# por Marcos Leonel, cidadão do mundo
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